Los lapices
siguen escribiendoMal-me-quis
E quem pode culpá-lo? Se eu fosse outra pessoa, também não ia querer ficar comigo.

Sem-teto
- Bom dia, Carol.
É o sol, às 6h40 toda manhã, no meu apartamento novo de janela grande voltada para o leste coberta por uma cortina bem fininha.
Mas ainda estou na casa dos meus pais, então vou ter que acordar com o despertador do meu relógio na estante ao lado da cama no meu quarto com face para o sudoeste e veneziana na janela.
Semana infernal, você já começa com um ponto de vantagem, já que o domingo foi desperdiçado. Mas tudo pode acontecer em cinco dias.
Tédio
Rodava incessantemente o chaveiro na mão direita havia três minutos quando se deu conta de que sequer tentava disfarçar a impaciência àquela altura. Guardou-o no bolso menor da mochila ao mesmo tempo em que, com a esquerda, puxava um cigarro do bolso. O amigo ofereceu o isqueiro, mas ela desistiu de acender qualquer coisa. Mais um dia estava perdido, a nicotina não ajudaria em nada.
Despediu-se depressa à medida que a ironia ganhava espaço em suas respostas. Gostava daquele amigo, apesar de nunca deixar de estremecer quando conversavam de pé. Ele sempre parecia ficar perto demais das pessoas. Ela odiava aquilo.
Deu meia volta, subiu a rampa com passos largos e lentos, as duas mãos segurando as duas alças da mochila verde escura, que teimava em prender parte dos cabelos. Chegou ao andar de cima, libertou as mechas e se arrependeu pela segunda vez.
A amiga - na verdade uma garota que a tinha como amiga, mas o sentimento não era recíproco, gritou seu nome de longe, veio correndo e a cumprimentou com um beijo e um abraço. Um exagero. Enquanto conversava sobre assuntos que não tinham a menor importância, teimava em mexer em seus cabelos. Pensou que sim, as pessoas estavam certas em reclamar da sua aspereza e rabugice, mas nem sempre elas eram desnecessárias. Aquele era um dos casos. Seus cabelos claros e compridos não eram vitrine ou exposição de natureza morta. Será que certas pessoas nunca desenvolveriam algum senso de educação?
Mas não tinha energia para expressar tudo isso. Acionou a nova desculpa favorita: o falso toque vibratório do celular. Pediu licença e desceu a rampa enquanto fingia atender uma ligação. Foi direto ao carro, sem olhar para os lados, jogou a mochila de qualquer jeito no chão do banco de trás e ligou o toca-CDs antes de sair do ponto morto. Não, Foo Fighters era demasiado enérgico para o momento. Vamos de Radiohead, disse para si mesma, e sorriu sem perceber que aquela fora a melhor frase que escutou o dia todo.
Era verdade que foram poucas as palavras que trocou com outros seres humanos naquela quinta-feira. Acordara tarde, bebera uma xícara de café com pão francês e manteiga sentada no sofá em frente à televisão ligada. Gastara 50 minutos navegando pela internet à procura de qualquer coisa que tornasse a tarefa de manter os olhos abertos menos árdua. Encontrou 5 vídeos bregas e evitou 3 amigos no comunicador instantâneo.
Na falta do que fazer, resolveu almoçar cedo: arroz, peixe, batata palha e dois copos e meio de Coca-Cola. Tentou lutar contra o desejo por açúcar, após tanto sódio, mas a barra pequena de Diamante Negro foi inevitável. Calçou o par de tênis de sempre e saiu de casa sem falar tchau.
Ouvia “In Your Honour” quando chegou à Marginal do Rio Pinheiros. Era cedo para a aula, mas não havia trânsito. Irritou-se com a idéia de ter de preencher o horário livre com outras pessoas e contemplou fazer algum desvio ou simplesmente esperar o tempo passar dentro do carro, no estacionamento da faculdade. Dispensou o plano. Deprê demais. Abriu a janela, acendeu um cigarro e cantarolou enquanto o vento embaraçava os cabelos.
A música ainda estava na sua cabeça quando sentou na biblioteca, fingindo ler os textos que o professor pedira. Suas páginas sempre tinham anotações e grifos caprichados até as 7 primeiras páginas, e depois entraram em uma espiral até virarem hieróglifos e, então, simplesmente desaparecem antes do capítulo final.
Sentou-se no fundo da sala, na mesma carteira da semana anterior. Seu desenho, em caneta esferográfica azul, ainda estava lá. Escreveu ao lado dos rabiscos: “a tia da limpeza deve gostar da minha arte”. Pensou, mas não escreveu, que ela deveria ser a única admiradora.
Por duas horas, o professor fala e ela não escuta. Decide aproveitar o intervalo para encerrar as atividades acadêmicas e iniciar as extra-curriculares. Repete para si mesma durante o caminho até a lanchonete que, dessa vez, será paciente. Mas todas as mesas já estava ocupadas, e o único amigo por lá era justamente o que insistia em reduzir a distância física a míseros dez centímetros. Resiste por exatos 9 minutos, contados no relógio. Entediada, dá meia volta e parte em busca de uma nova distração.
Amanhã
É feriado, mas eu trabalho.
Eu trabalho, mas vou correr.
Vou correr, mas sem cansar.
E hoje troquei a roupa do blog.
Alarm Clock
The worst fraud on this planet has the nail on her right pinky finger crooked.
The biggest idiot in my country can only feel when it hurts.
The enourmous waste of space in this room only gets wider.
Why would anyone want that? Why are you still hoping they do?
Foi quase verão*
Há quatro dias não sinto nada além de frio.
No primeiro dia, culpei a meteorologista da tevê por explicar que “a frente subtropical, ao contrário da frente fria, traz chuva, mas não derruba a temperatura”.
No segundo, me irritei com o sol que saiu no início da manhã e se escondeu durante o resto do dia. Aquele dissimulado.
Ontem, foi o ar-condicionado o grande responsável por levantar os pêlos do meu braço e, hoje, o ciclo deve voltar para a moça do tempo.
Resolvi dar mais uma chance ao mapa que só tinha cores amarelas nas linhas em cima de São Paulo, já que ela garantiu que a temperatura vai subir.
São 9h16, cedo demais para levantar suspeitas.
Lamentavelmente, nós dois sabemos bem que tudo isso não passa de uma tentativa de fuga do verdadeiro problema. Admitir que o inverno que me ronda na verdade vive dentro de mim, e que ele foi semeado e regado pela sua ausência, é conceder uma derrota.
Nesse ano, a primavera chegou mais cedo na minha vida. Chegou com muitos anos de atraso.
Ainda vestia cachecol e uma coleção de gorros coloridos quando o seu ombro esquerdo e uma caneca azul de chocolate quente engrossado com aveia encostaram em mim. Foi o começo do degelo. Você se recusou a patinar, queria mesmo era dar logo um mergulho. E eu não prestei atenção nos alertas de Al Gore. Agora corro o risco de morrer afogada.
Se for para desaparecer em algum córrego, que eu nunca mais seja encontrada. Que meu corpo seja levado o mais rápido possível para o oceano, sem que eu tenha tempo de apreciar as belezas das árvores, montanhas e cidades para não sentir medo de deixar tudo para trás. Que as águas do Atlântico me carreguem para o Sul.
Sem escalas até a Antártida. Lá, talvez os icebergs me protejam da sua volta. Você tem o Sol e as emissões de CO2 no seu time. Eu ainda luto sozinha. Não faz muito tempo e eu já tinha pensado em pendurar as luvas de boxe, passar protetor solar e abrir os braços para receber o calor com um sorriso pela primeira vez.
Mas eis que o brilho apagou, o vento apareceu e as folhas começaram a cair, uma por uma. A nevasca é apenas questão de tempo.
Pena, parece que o verão não chega esse ano. Melhor tirar o cobertor do armário e esperar o próximo aparecer.
*Escrito para o Haja Saco
New Year resolutions
1. To take shorter and not so hot showers.
2. To run the 2008 Sao Silvestre marathon
Falando sério
Dizem que o palhaço só usa maquiagem para esconder a tristeza.
Rugas, cicatrizes, olheiras e imperfeições, afinal,
não são material
para risadas.
Falhas, só as calculadas
em milímetros e ensaiadas
à exaustão para obter o resultado desejado.
E, depois do show, a personagem desaparece,
e o público nunca consegue
descobrir quem é o ser humano responsável por tanta alegria.
Mas isso só acontece com os profissionais.
Os natos são humanos sempre,
não escondem nada,
dá pra ver pelo brilho nos olhos.
Sem princípios
Fiz uma coisa terrível hoje. Me tornei o tipo de pessoa que mais desprezo no mundo. Eu traí. Joguei pela janela o relacionamento mais sólido, duradouro, verdadeiro e sincero da minha vida.
Comemoramos mais de uma década de união. Esse último verbo está no presente, viu? Porque ainda não admiti a traição, e ainda não sei se serei perdoada. Acredito sim que descumprir um compromisso é falha de caráter, mas passível de perdão.
Em minha defesa, só posso dizer que não planejei tamanha prova de desrespeito e, tampouco, que não tive meus motivos. Sim, porque precisar da pessoa amada, ligar para ela e não receber resposta, e depois ir até ela e encontrar a porta trancada na sua cara, num momento de desespero, pode abalar os princípios de qualquer um. E isso eu, que tenho nos meus princípios a fonte de todas as minhas crenças, aprendi isso hoje de manhã.
Valeu a pena? Em partes. Fiz o que tive que fazer em uma hora de extrema dificuldade. Foi uma questão de sobrevivência. Encontrei a primeira alternativa disponível. Não prestei atenção na aparência, só queria a satisfação imediata das minhas necessidades. Estava abandonada e agarrei o único sinal de atenção.
Mas não foi bom. A lasagna foi, aliás, muito pior que o arroz e feijão ao qual eu já me acostumei depois de tantos anos de convivência regular. Já nos conhecíamos, nunca ficávamos sem papo, não tinha vergonha de me despir na frente dela ou de mostrar o que ninguém mais, além do meu ginecologista, já viu. Os cerca de 15 minutos de atenção integral eram suficientes para garantir alívio e felicidade que chegavam a durar um mês. Quando morei um ano no Canadá, nem dos meus pais senti tanta saudade.
Ontem, o pulo da cerca durou uma hora. No começo, torcia para nenhum avião cair na cidade, para não ter que sair na metade da traição - se já estava lá, tinha que até o final, pensei. Mas, quando vi que o meu erro era maior do que imaginava, comecei a enviar sinais telepáticos para alguém me telefonar. Não desejei mais uma tragédia urbana, claro, mas qualquer blitz ou protesto de camelôs para me salvar daquela situação desagradável.
Subitamente, lembrei-me da última vez que havia pulado a cerca. Ok, eu admito, essa não foi a primeira, mas a outra foi no exterior, não durou nada e, francamente, foi mais uma questão cultural, um intercâmbio.
Claro, hoje os cremes ajudaram bastante a aliviar meu martírio, mas durante os últimos 20 minutos só queria mesmo era ir para casa e resolver o problema com minhas próprias mãos. Eu sou mesmo impaciente em todos os cantos da casa, em todas as horas do dia, em todos os dias da semana. Por fim, não resisti e perguntei: “vai demorar muito?” Minha parceira no crime, que antes se gabava por eu tê-la escolhido em detrimento da minha sólida relação, percebeu o meu arrependimento e, na saída, enquanto eu pagava a conta - a única coisa exatamente igual entra a oficial e a amante - ela me pediu desculpas.
“Imagine”, disse eu. Sim, sou traidora, mas não vou fugir das conseqüências. A culpa foi toda minha, e hoje eu aprendi que depiladora não é que nem homem na balada. Não são todas iguais.
PS: Cida, se você estiver lendo esse blog, me perdoa por favor!